A inserção do sujeito no mundo é por meio da percepção. A ela se atribui a capacidade de assimilar e ser no mundo, afinal, somos seres perceptivos. O artista não representa apenas o mundo, mas o projeta, nos faz ver outras possibilidades e torna visível a estrutura sensível do real. É pelo atravessamento plástico que podemos sugerir o exercício da atenção metafísica, que desvela a organização fenomênica para além dos aspectos familiares da experiência. A arte se revela como excedente do sentido, um campo privilegiado que opera na captura das nuances do sensível - a linha, o traço, a arranjo cromático, volumetria, profundidade e ritmo - todos elementos presentes no trabalho de Ethan Cook. 

Merleau-Ponty defende o sujeito como portador das capacidades que apreendem todas as configurações sensíveis mundanas e, por outro, define o ser do mundo como a totalidade dessas configurações. Na mostra “Mundo menor”, primeira individual de Ethan Cook no Brasil, nos deparamos com o encontro da fenomenologia de Merleau-Ponty ao homem vitruviano de Leonardo da Vinci, em que o corpo humano é um microcosmo, um reflexo em miniatura do universo, a vivência de um todo unificado, em suas ramificações profundas e conectadas, antecipando uma contrariedade ao pensamento cartesiano da separação. 

A poética de Cook é vitruviana, em que seu olhar perceptivo da técnica projeta uma exposição ,unificada, da saída da linha do tear até finalmente a montagem no chassis, a cada linha e tecido entrelaçado se guarda o gesto do artista. Cook nos demonstra a espessura de um mundo sensível, o estar diante de uma obra de arte e o fundamento em sua prática. O espaço é habitado com uma série que o artista vem desenvolvendo desde 2012, em que parte de uma técnica ancestral da tecelagem no tear, processualmente iniciando no elemento mínimo que são as linhas de algodão até se projetar um corpo para a pintura. Utiliza o tear de quatro arneses, um dispositivo manual que mantém os fios sob tensão, permitindo dessa forma que possam ser entrelaçados, enredados, forjando uma trama que se torna um tecido e se irradiam em blocos de cor. 

Opera no campo da pintura expandida, demonstrando plasticamente o elemento pictórico sem o uso do pincel, aplicando a pintura parte a parte, em uma estruturação do grid nada enrijecido, principalmente pelas escolhas na formatação das cores na verticalização dos tecidos colocados que partilham o espaço da tela de um modo ritmado. Não é necessário a utilização da tinta e pigmento sobre a tela para a concepção de uma pintura, a composição cromática nos trabalhos circula os azuláceos, ora mais marinhos e abissais, ora mais lavados e esmaecidos, em toda sua totalidade sobre o fundo de algodão claro. Projeta flutuações e sobreposições e cria massas de cores solidificadas que se tornam campos de cor filamentosos. Dentre os azuis vemos o olhar atrair-se diretamente para massas de cor que se destacam como os de cor avermelhada, esverdeados e rosáceos.

O tear é uma tecnologia consolidada muito antes da revolução industrial, parte de conhecimentos tradicionais na tecelagem. No entanto, na perspectiva de Cook o dispositivo é contemporâneo e leva a abstração ao limite, desloca uma técnica milenar e atribui outros sentidos a estes processos, materiais e montagens. Contraria a lógica industrial da reprodutibilidade têxtil. Em sua poética a tecelagem é orientada pelo gestual. 

Há um amalgamento da ação em que o gestual se mescla, o esticamento da linha é também a tensão da mão de Cook, o conjunto de fios aguarda, a mão decide o encaminhamento e se hibridiza quem é artista e o que é matéria, em um cruzamento do micro e do macro. As várias partes dos tecidos coloridos são modeladas e costuradas, indicando formações geométricas e abstratas. Se apropria da ação do acaso, tanto matérico como conceitual, ao incorporar aspectos artesanais da tecelagem em formas emendadas e mosaicas. 

Há uma memória partilhada a partir da experiência incorporada da interconectividade entre os trabalhos. Se Penélope, na epopéia Odisséia, tecia durante o dia e destruía durante a noite, ela articulava politicamente a suspensão do tempo a partir de sua ação ativa, em um futuro que dependia de sua dedicação ao tear. Em Cook o processo é inverso, é construção e edificação, a interconexão entre as obras é a potência da tecelagem pictórica, o espaço é enlaçado, cada trabalho é singular e formam um corpo de pintura em conjunto. As pinturas são planificadas e as partes contíguas dos tecidos se tornam apenas um, a composição cromática ritmada ocasiona a materialização do indizível, ou como afirmou Anni Albers, é a sensibilidade tátil em ação - sensibilidade essa que emana da poética de Ethan.

Em Ethan Cook a matéria é abstracional, o pensamento da tecelagem é pictórico, e o dispositivo tear não é somente um dispositivo mecânico, mas uma parte compositiva do gesto do artista, carregando a contemporaneidade em compasso com a historicidade. O artista é iniciador de uma ação que gera uma obra e conta com parcela do acaso na produção. Ele não controla todos os aspectos de seu significado. Há uma beleza em incorporar a matéria como parte constitutiva da poética, em que a linha, o tecido e o aspecto artesanal do tear são compositivos e identificáveis como elementos do artista, enquanto o espaço expositivo é enovelado, expandindo e articulando a estrutura sensível do real. 

 


Mariane Beline

Come Long and Short, 2025

algodão tecido à mão

91,4 x 76,2 cm

Tumult, 2025

algodão tecido à mão

119,4 x 106,7 cm

Shredded, 2025

algodão tecido à mão

119,4 x 106,7 cm

In Sequence, 2025

algodão tecido à mão

101,6 x 203,2 cm

Purple Riley II, 2025

algodão tecido à mão

101,6 x 127 cm

Purple Riley I, 2025

algodão tecido à mão

101,6 x 127 cm

Netagivland, 2025

algodão tecido à mão

91,4 x 76,2 cm

Glory Box, 2025

algodão tecido à mão

101,6 x 203,2 cm

Stuff like that there, 2025

algodão tecido à mão

76,2 x 101,6 cm

X
ID: 20
Come Long and Short, 2025
algodão tecido à mão
91,4 x 76,2 cm





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ID: 21
Tumult, 2025
algodão tecido à mão
119,4 x 106,7 cm





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ID: 22
Shredded, 2025
algodão tecido à mão
119,4 x 106,7 cm





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ID: 23
In Sequence, 2025
algodão tecido à mão
101,6 x 203,2 cm





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ID: 24
Purple Riley II, 2025
algodão tecido à mão
101,6 x 127 cm





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ID: 25
Purple Riley I, 2025
algodão tecido à mão
101,6 x 127 cm





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ID: 26
Netagivland, 2025
algodão tecido à mão
91,4 x 76,2 cm





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ID: 27
Glory Box, 2025
algodão tecido à mão
101,6 x 203,2 cm





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ID: 28
Stuff like that there, 2025
algodão tecido à mão
76,2 x 101,6 cm





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