Autorretrato, 1947

óleo sobre tela

54 x 45 cm

Pessegueiro Florido, década de 1940

óloeo sobre tela

77,9 x 64,1 cm

Flamboyant - Ao fundo Igreja de São Benedito e Igreja Matriz de Paranaguá, 1952

óleo sobre tela

44 x 55 cm

Sem Título, década de 1950

óleo sobre tela

46 x 54 cm

Troncos, 1947

óleo sobre tela

55,5 x 44,5 cm

Porteira, 1940

óleo sobre tela

36,5 x 45,5 cm

Arvoredo, década de 1950

óleo sobre tela

26,5 x 33 cm

Pereiras, 1947

óleo sobre tela

55,5 x 44,5 cm

Casas e Pinheiros, década de 1950

óleo sobre tela

55,3 x 45,5 cm

Cafezal, 1962

óleo sobre tela

73 x 92 cm

Sem Título, década de 1950

óleo sobre tela

27,5 x 37 cm

Paisagem com Palmeira, 1944

óleo sobre tela

78,5 x 64 cm

Veleiro na Baia de Antonina, década de 1950

óleo sobre tela

78,5 x 64

Marinha, década de 1940

óleo sobre tela

26 x 32 cm

Marinha, década de 1940

óleo sobre tela

27,5 x 33,5 cm

Miguel Bakun

26/10/2019 até 14/12/2019

São Paulo - Simões de Assis Galeria de Arte

 

Artistas: Miguel Bakun .

 

Por Osmose

Ronaldo Brito

Não se enganem com a escala modesta, as cores terrosas, enfim, o aspecto de casual abandono que preside sobre as telas de Miguel Bakun. Elas não respondem passivamente ao mundo. À sua maneira enviesada, avançam decididas sobre ele e o recortam à medida do Eu do artista. Quase chegamos a vê-lo se aproximar furtivamente da paisagem para abreviá-la, tomá-la para si, impregná-la com seu lirismo pungente mas nem um pouco declamado. De fato, nosso pintor parece operar por osmose. É preciso, primeiro, reduzir a cena ao alcance de seus poderes de transfiguração e encantamento, poderes limitados porque intensos demais. Para esse autodidata de província, desamparado de tradição, isso desde logo implicava a empatia com trechos esquecidos de mundo, entregues à própria sorte, inéditos porque jamais mereciam atenção pública. Este é o lar, o único lar possível, desvalido e transitório, desse livre exercício de pintura que, por vocação, procede às avessas do mundo burguês administrado.

Depois, é urgente estreitar o contado físico. Muito da força poética de Bakun deriva da sensação de presença corpórea – sentimos o artista em meio à natureza, quase indistinto, a acompanhar sua pulsação orgânica; e o assistimos ainda a absorver a cena, em geral concisa e transversa, até que a tela literalmente a incorpore. É um truísmo: segundo a lógica contrária do trabalho de arte, o errado costuma dar certo. No caso de Miguel Bakun, o óleo fruste, sem brilho, quem sabe veio a ser o veículo ideal a permitir a coalescência com o vegetal, a porosidade com que assimila a matéria orgânica. As extraordinárias marinhas, por sua vez, ostentam um pronunciado acento mineral. Já os céus não exalam nada de aéreo: são quase metálicos. Trata-se sempre, porém, da mesma ânsia tátil que desobedece à vontade a regra acadêmica da textura, a correta imitação visual da sensação tátil. A matéria da pintura é o espírito do pintor. A contraprova vem em seus autorretratos despojados, gênero mimético por definição. Reparem como a figura do artista é feita do mesmo estofo do interior que, ao invés de o acolher e distinguir, expõe sua precária condição existencial. Menos do que representante típico da boêmia —habitat por excelência do pintor extraviado da época— Miguel Bakun se apresenta como o homem comum, funcionário de repartição, comerciário talvez, desgastado pelo trabalho, com a fisionomia um tanto perplexa.

Uma vez que o quadro pós-impressionista busca a verdade em si mesmo, em sua própria personalidade, e só se autojustifica graças à coerência e potência formais, é evidente que a natureza deixa de ser Criação, a guardar um segredo que a pintura nos ajudaria a resgatar. O humilde e isolado Bakun foi entre nós um dos primeiros paisagistas para quem o contato com a natureza, o Outro do homem, se converte no modo insigne de interrogar o destino pessoal. Modo solitário, silencioso e meditativo, que a agitação e o convívio humano anônimo e conspícuo da cidade grande tornaram impraticável. De alguma maneira, por meios e modos difusos, Miguel Bakun fez-se contemporâneo de Cézanne e Van Gogh. Ele não passava os olhos sobre as reproduções de suas telas, a essa altura, já emblemáticas; à sua medida, ele as introjetava, examinava a fundo, até as últimas partículas de seu ser.

A cronologia termina, assim, quase irrelevante. O que importa é que essas pequenas telas introspectivas, que adquirem direito de cidadania como linguagem moderna inicial nos tardios anos 1940, continuam a seduzir e intrigar o olhar contemporâneo. Quer dizer, permanecem e, para muitos de nós, só agora aparecem como agentes do nosso acervo simbólico modernista, instintivamente envolvidas que estavam com o difícil processo de formação do sujeito estético moderno no Brasil. Junto às telas de uns poucos pares, Guignard, Pancetti e um Alfredo Volpi que ainda preparava o salto mortal em direção à plena pintura autônoma, elas nos levam a interrogar o presente de nosso passado modernista. Porque, visivelmente, o atualizam.