Objeto Cinético, 1965-2000

tinta industrial, madeira, metal, imãs e motor

67 x 36,2 x 36,2 cm

Sem Título, 1992

cartão duplex

63 x 61,5

Progressão 202, 1965

madeira jacarandá

68 x 133 cm

Sem Título, 1981

acrílica sobre madeira

50 x 50,5 cm

Sem Título, 1978

óleo sobre ripas de madeira

54 x 45 cm

RS-14, 1976

placa, resina e poliéster

74,5 x 77,8 cm

W-H/72, 2017

acrílica sobre madeira

109,1 x 169 cm

W-V/26, 2017

acrílica sobre madeira

122,5 x 109,5 cm

W-M/24, 2017

acrílica sobre madeira

69,5 x 81,7 cm

Abraham Palatnik

05/10/2019 até 23/11/2019

Curitiba - Simões de Assis Galeria de Arte

 

Artistas: Abraham Palatnik .

 

PALATNIK: encantamento e reflexividade do olhar


Abraham Palatnik é um dos pioneiros da arte cinética na história da arte do pós-guerra. Participou da formação do grupo concreto no Rio de Janeiro – Grupo Frente – entre o final dos anos 1940 e o começo da década de 1950. Seu Cinecromático causou impacto na 1ª Bienal de São Paulo de 1951 e foi um divisor de águas. A questão que o mobilizou ao longo de toda sua longa trajetória, todavia, não se prende à tecnologia, mas está focada na articulação entre movimento (real ou virtual) e atenção perceptiva.


É sabida nossa dispersão sensorial circulando pelas grandes metrópoles modernas. A excitação estética que nos mobiliza, na publicidade e no entretenimento,  nos faz olhar muita coisa e não parar para ver nada. Não há tempo e tudo passa. A obra de Palatnik impõe-nos outra temporalidade. O encantamento nos atrai e somos convidados e reparar no que vemos. Ao mesmo tempo em que tudo mexe, nosso olhar se fixa na magia deste jogo lúdico de linhas e cores.


Neste aspecto, sua obra esteve, mesmo que indiretamente, vinculada aos interesses da Op art. Uma espécie de acaso controlado define o acender e o apagar das luzes nos cinecromáticos ou o movimento inusitado das hastes nos aparelhos cinéticos ou de ripas, cordas e veios de madeira nas múltiplas séries que ele criou desde a década de 1960.


O importante no uso da tecnologia no seu caso é que ele se apropria e transforma o dispositivo tecnológico sem se submeter aos seus condicionamentos predeterminados. A tecnologia não é um imperativo de expressão determinado pela novidade, é um meio de expressão a ser deslocado por conta das potencialidades poéticas e estéticas. Neste aspecto, há um diálogo lateral entre Palatnik e Calder. O que os mobiliza é o gozo estético, o momento da experiência que nos tira da determinação cotidiana.


Em uma crítica de 1951, publicada no Diário Carioca, Antonio Bento já aproximava Palatnik de Calder e fazia isso pelo fato de ambos introduzirem o tempo na experiência das artes visuais. O artista americano buscava esta pulsação temporal a partir da escultura, já o brasileiro vai produzi-la como um desdobramento da experiência pictórica. São obras que nascem de gestos simples, de pequenos achados onde sobram graça e encantamento. Esta combinação do lúdico e do cinético vai singularizá-los dentro desta vertente construtiva que os perpassa.


A obra de Palatnik manteve-se sempre acreditando na afirmação de uma subjetividade emancipada pelo contato mobilizador com a forma artística. Qualquer tipo de determinismo, seja político, seja tecnológico, passa à margem de sua obra. É uma experiência de absorção e sedução que faz com que a obra seja um lugar de sensibilização de formas e cores. O que interessa na relação com o fenômeno estético é o parar para ver e deixar-se seduzir pelo tempo intrínseco deste ver. Não se adequa ao mero reconhecer, não há nada “fora” ou “antes” do ato de perceber, apenas o dar-se do acontecimento visual.


A partir da década de 1960 a obra de Palatnik tomará dois caminhos. O fascínio não é mais com a luz, mas apenas com o movimento e ele pode ser tanto real como virtual. Sua obra se desenvolverá tanto na produção de objetos cinéticos como de pinturas intituladas Progressões, feitas a partir do movimento óptico dos veios da madeira ou de efeitos cromáticos serializados pintados sobre a madeira1. Em seguida, novos materiais passam a ser explorados: do poliéster ao papel cartão, passando pelas cordas e voltando às ripas. Esta exposição na galeria Simões de Assis está focada neste segundo aspecto do movimento, mais óptico que cinético.


Tomando as progressões do começo da década de 1960, uma indagação pode ser feita em relação ao uso da madeira. Este uso não parece arbitrário, mas resultado do seu envolvimento àquela época na produção de mobiliário, que o punha em contato direto com a madeira. A partir daí, com sua sempre concentrada atenção estética, a madeira passa a revelar possibilidades formais até então despercebidas. O que interessava a Palatnik era o modo como a forma iria resistir ao tempo acelerado do mundo contemporâneo, obrigando o olhar a parar e deixar-se seduzir pelo acontecimento visual. Contra a manipulação sensorial da sociedade do espetáculo, há neles o primado fenomenológico do reaprender a ver o mundo.


Por fim, sua obra assume um compromisso ético, no sentido de uma experiência perceptiva livre e independente – sem determinações normativas nem cognitivas. A obra de Palatnik, assim como de alguns artistas importantes do movimento Op, apesar dos riscos formalistas inerentes a certa diluição decorativa, assumiu até o fim o desejo de fazer da pintura um exercício de emancipação estética da humanidade.

 


Nota:
1 Deixo de lado aqui sua atividade industrial, suas pesquisas com novos materiais como o poliéster e seus jogos e máquinas lúdicas.


Luiz Camillo Osorio *

*Luiz Camillo Osorio (Rio de Janeiro, 1963) - Professor Associado e atualmente Diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, pesquisador do CNPQ e curador do Instituto PIPA. Entre 2009 e 2015 foi Curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 2015 foi o curador do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza. Em 2016 fez a curadoria da exposição “Calder e a arte brasileira” no Itaú Cultural e em 2017 a curadoria do 35º Panorama da Arte Brasileira no MAM-SP. 

Autor dos seguintes livros: Flavio de Carvalho, Cosac&Naify, SP, 2000; Abraham Palatnik, Cosac&Naify, SP, 2004; Razões da Crítica, Zahar, RJ, 2005, Angelo Venosa, Cosac&Naify, SP, 2008; Olhar à Margem, SESI-SP e Cosac&Naify, SP, 2016. Foi crítico de arte do jornal O Globo entre 1997 e 2008 e do conselho de curadoria do MAM-SP entre 2006 e 2008. Publicou ensaios e críticas em revistas e catálogos e fez curadorias independentes no Brasil e no exterior.